…rumo ao norte!. (1.º episódio) (heading North, 1st. episode)

…rumo ao norte!. (1.º episódio) (heading North, 1st. episode)

…rumo ao norte!. (1.º episódio) heading north!. (1st episode)

…olá, olá, olá, já chegámos!. (Hello, hello, hello, we’ve already arrived)!.

…o aventureiro sai de casa, corre os riscos da estrada, do sol tórrido ou brilhante, do frio da neve, da chuva torrencial ou miudinha, passa montanhas, vales ou planícies, atravessa oceanos, rios, ribeiros ou grandes lagos, faz caminhadas sobre precipícios, conhece pessoas de outras paragens, alimenta-se de diferentes espécies a diferentes horas do dia ou da noite, e claro, encontra alguns perigos no meio da sua aventura de conhecer novos mundos!. (The adventurer leaves the house, runs the risk of the road, the torrid or bright sun, snow cold, torrential or small rain, passes mountains, valleys or plains, crosses oceans, rivers, streams or great lakes, makes walks on cliffs, meets people from other places, feeds on different species at different times of day or night, and of course, finds some dangers in the middle of their adventure to meet new worlds)!.

…todavia, acaba regressando mais sábio, mais rico do que antes!. Pensando bem, a sua aventura é um movimento de segurança para o perigo!. O movimento de voltar a casa, não é previsível o suficiente, depois do convívio com outras pessoas em outras paragens, talvez dadas as culturas do povo e dos cenários que viu, para que pare de viajar de novo, para que se aventure de novo à estrada, para que vá correr todos os riscos, que uma aventura nesta nossa já um pouco avançada idade, nos possa trazer!. (Nonetheless, it ends up coming back wiser, richer than before!. Come to think of it, your adventure is a safe move to danger!. The movement to return home is not predictable enough, after living with other people at other places, perhaps given the cultures of the people and the scenarios you saw, to stop traveling again, to venture back to the road, so that it goes to run all the risks, that an adventure in ours already a little advanced age, can bring us)!.

…todas as melhores aventuras são literalmente emocionantes e simbólicamente cheias de emoção, tal como a nossa, rumo ao norte, já lá vão algumas semanas, quando deixámos o estado da Flórida!. Houve algumas paragens de rotina até ao estado de New Jersey onde convivemos com a família que por aqui vive!. (All the best adventures are literally thrilling and symbolically filled with excitement, just like ours, heading north, it’s been weeks since we left the state of Florida!. There have been a few routine stops to the state of New Jersey where we live with the family that lives here)!.

…foi agradável, mesmo muito agradável, os netos sorriem e brincam, gostam de carinho, fazendo de nós uns avós ainda mais felizes, onde a nossa filha Sandy e o seu marido Brian, nos proporcionaram excelentes momentos!. (It was pleasant, even very pleasant, the grandsons smile and play, they like affection, making us even happier grandparents, where our daughter Sandy and her husband Brian, provided us with great moments)!.

…que melhor razão poderia haver para uma aventura em busca da família sempre para norte, no estado de Pennsylvania, onde o nosso filho Tony e a sua amável esposa Kathy, agradávelmente nos receberam, proporcionando momentos felizes com os nossos netos!. (What better reason could there be for a family-seeking adventure ever north in the state of Pennsylvania where our son Tony and his lovely wife Kathy have graciously welcomed us, providing happy times with our grandchildren)!.

…que, já grandotes, querem a todo o momento a atenção dos avós, acompanhando-nos numa caminhada pela célebre Appalachian Trail!. (Who, already big, always want the attention of the grandparents, accompanying us on a walk on the famous Appalachian Trail)!.

…não esquecemos estes momentos de convívio com a família, tanto no estado de New Jersey como no estado de Pennsylvania, são exemplos puros e inigualáveis que vamos recordar pelo resto dos nossos dias!. (Do not forget these family moments in New Jersey as well as in the state of Pennsylvania are pure and unequaled examples that we will remember for the rest of our days)!.

…nesta aventura rumo ao norte, não seguíamos o mapa do tesouro, do pirata da perna de pau, do papagaio falante, seguíamos um mapa moderno, na esperança de ver o cenário que os nossos avós viveram naqueles anos distantes, em que se aventuraram na pesca do peixe bacalhau, lá na gelada região da Terra Nova!. (O)n this adventure northward, we did not follow the map of the treasure, the pirate of the wooden leg, of the talking parrot, we followed a modern map, hoping to see the scenery our grandparents lived in those distant years, they ventured into codfish fishing in the icy Newfoundland)!.

…não vestíamos um casaco de cabedal, não usávamos um chapéu largo e um chicote na mão direita, tal como a lendária personagem do “Indiana Jones”, quando atravessámos parte do estado de Nova Iorque!. (We did not wear a leather jacket, we did not wear a wide hat and a whip in the right hand, just like the legendary “Indiana Jones” character when we drove through New York State)!.

…para uma visita às célebres Cataratas de Niagara, continuando a ver e apreciar esta maravilhosa atracção!. (For a visit to the celebrated Niagara Falls, continuing to see and enjoy this wonderful attraction)!.

…também já depois de atravessar a fronteira para o Canadá!. (Also already after crossing the border into Canada)!.

…colocada sobre a narrativa da corrida a uma vida melhor, mais convencional e humana, quando em outros tempos, os portugueses imigrantes, que se deslocavam para o território do Canadá, procurando, além de alguma segurança financeira, também alguma cultura e civilização, visitámos na província de Ontário, por entre um tráfico intenso, a cidade de Toronto!. (Placed on the narrative of the race to a better, more conventional and human life, when in former times the Portuguese immigrants, who were traveling to the territory of Canada, looking for, besides some financial security, also some culture and civilization , we visited in the province of Ontario, through an intense traffic, the city of Toronto)!.

…onde ainda existe a célebre “Rua Augusta”, mas quase sem portugueses, que pouco a pouco se foram deslocando para a Rua College, onde antigamente circulavam carros eléctricos!. (Where there is still the famous “Rua Augusta”, but almost without Portuguese, that little by little they were moving to College Street, where formerly electric cars circulated)!.

…na província do Québec, experimentámos uma verdadeira e profunda aventura, subindo à torre olímpica, num moderno elevador, onde as velhas formas de pensar e viver não são mais possíveis, com uma maravilhosa vista para a cidade de Montreal!. (In the province of Québec, we have experienced a real and profound adventure, climbing to the Olympic tower, in a modern elevator, where the old ways of thinking and living are no longer possible with a wonderful view of the city of Montreal)!

…visitando a área da antiga cidade olímpica assim como a beira rio, onde ainda existem alguns barcos considerados “relíquias”, que navegam pelo rio São Lourenço!. (Visiting the area of the ancient Olympic city as well as the river bank, where there are still some boats considered “relics”, which navigate the St. Lawrence river)!.

…ainda na província do Québec, em direcção a leste, tão original no tempo, levou-nos tão profundamente em nosso inconsciente, a histórias de piratas, com barcos de corsários que chegavam para pilhagens, num lugar especial e privilegiado em ficção de aventura, onde a cidade do Québec, situada entre muralhas, é um exemplo puro e inigualável do gênero!. (Still in the province of Québec, heading east, so original in time, took us so deeply into our unconscious, stories of pirates, with boats of privateers who came for looting, in a special place and privileged in fiction adventure, where the city of Québec, nestled between ramparts, is a pure and unequaled example of the genre)!.

…aqui parámos por o espaço de um dia, onde com algum sol, nos deu oportunidade de ver uma cidade museu, por onde passa o rio São Lourenço, maioritáriamente francesa, datada do ano de 1608, com um núcleo colonial fortificado, Vieux-Québec e Place Royale, com prédios de pedra e ruas estreitas!. (Here we stop for the space of a day, where with some sun, gave us the opportunity to see a museum city, through which passes the St. Lawrence river, mostly French, dating from the year 1608, with a fortified colonial nucleus, Vieux -Québec and Place Royale, with stone buildings and narrow streets)!.

…esta área é o local do imponente Château Frontenac Hotel e da imponente Citadelle de Québec!. (This area is the site of the imposing Château Frontenac Hotel and the imposing Citadelle of Quebec)!.

…as ruas de paralelepípedos do bairro Petit Champlain estão repletas de boutiques, onde alguns artistas desenham rostos de algumas pessoas e oferecem pinturas com paisagens desta cidade museu onde alguns lugares estão conservados como há centenas de anos!. (The cobblestone streets of the Petit Champlain neighborhood are filled with boutiques where some artists draw faces of some people and offer paintings with landscapes of this city museum where some places are preserved as they have been for hundreds of years)!.

…sempre no sentido leste, atravessámos a província de New Brunswick, uma das províncias marítimas do leste do Canadá!. Abrange rios, florestas de pinheiros, montanhas e a Baía de Fundy, conhecida por marés extremas e observação de baleias!. A cidade portuária de St. John, que devido à falta de tempo não visitámos, abriga o Museu New Brunswick, com obras de arte locais que datam de 1800, e as muitas barracas de comida do St. John City Market. Usámos uma excelente estrada, atravessando imensas florestas, onde alguns animais e aves selvagens surgiam aqui e ali, principalmente junto aos rios e lagos! (Always in the east direction, we crossed the province of New Brunswick, one of the maritime provinces of eastern Canada!. It encompasses rivers, pine forests, mountains and the Bay of Fundy, known for extreme tides and whale watching!. The port city of St. John, which due to lack of time we have not visited, houses the New Brunswick Museum with local artwork dating back to the 1800s, and the many food stalls of St. John City Market. We used an excellent road, through vast forests, where some wild animals and birds came up here and there, especially along the rivers and lakes!

…estávamos quase a chegar ao local de embarque para uma aventura simbólicamente cheia de imprevisto, não só de natureza humana, tal como nas viagens do aventureiro “Gulliver”, era uma jornada ao interior do optimismo, onde quanto mais aventuras temos, menos optimista nos tornamos!. (We were almost arriving at the embarkation place for an adventure symbolically full of unforeseen, not only of human nature, as in the voyages of the adventurer “Gulliver”, was a journey to the interior of the optimism, where the more adventures we have, less optimistic we become)!.

…estávamos na província de Nova Escócia, que é uma das províncias marítimas do leste do Canadá no Atlântico!. Uma península e ilhas, é o lar de papagaios e focas, muito popular para desportos aquáticos!. A Baía de Fundy, com suas famosas marés extremas, é um destino para observação de baleias!. Depois de atravessar toda a província, chegámos à cidade de Sydney, que é uma cidade portuária na Ilha Cape Breton, onde as construções de madeira do século XVIII incluem as casas Cossit e Jost, agora museus com móveis de época, onde se podia entrar no barco, que nos havia de levar ao nosso principal destino, que são as províncias de Terra Nova e Labrador!. (We were in the province of Nova Scotia, which is one of the maritime provinces of eastern Canada in the Atlantic !. A peninsula and islands, it is home to parrots and seals, very popular for water sports !. The Bay of Fundy, with its famous extreme tides, is a destination for whale watching !. After crossing the entire province, we reached the city of Sydney, which is a port city on Cape Breton Island, where 18th century wooden buildings include the Cossit and Jost houses, now museums with period furniture, where one could enter the boat that would take us to our main destination, which are the provinces of Newfoundland and Labrador)!.

…especialmente em contraste com as nossas vidas aceleradas de hoje, neste momento, íamos todos, nós no 9.º andar e a nossa “White Fox” no 3.º, tal como a vida pirata das pessoas de espírito livre e corajosas, que ainda pensam que podem desaparecer no mundo, simplesmente embarcando em um navio e apontando-o em direção ao horizonte, navegávamos, tal como qualquer famoso pirata das histórias, que viviam durante a Era de Ouro da Pirataria, sobre as águas do Golfo de São Lourenço, que é a saída dos Grandes Lagos da América do Norte através do Rio São Lourenço para o Oceano Atlântico!. Todavia havia nevoeiro no canal, o navio, (Highlanders), periódicamente apitava um som forte e lento, não sabemos se arrogante ou de súplica, talvez querendo dizer, para fugirem da sua frente, pois ele navega por aqui!. Nós ouvimos o som do apito, pensando ser piratas, mas dos bons, daquelas histórias que aparecem na televisão com que as mães entretêm as crianças, não aquelas personagens selvagens de aventuras emocionantes!. Todavia, íamos desejosos de chegar ao bom porto, na província de Terra Nova, talvez pelo fim da tarde!. (Especially in contrast to our fast-paced lives today, at this time, we were all on the 9th floor and our “White Fox” in 3rd, just like the pirate life of the brave and free-hearted people, who still think they can disappear into the world, simply embarking on a ship and pointing it towards the horizon, we navigated, like any famous story pirate, who lived during the Golden Age of Piracy, on the waters of the Gulf of St. Lawrence, which is the exit of the Great Lakes of North America through the St. Lawrence River to the Atlantic Ocean!. However there is fog in the channel, the ship, (Highlanders), periodically whistles a loud and slow sound, we do not know whether arrogant or supplication, perhaps meaning, to flee from his front, for he sails here!. We hear the sound of the whistle, thinking of being pirates, but of the good ones, those stories that appear on television with the mothers entertaining the children, not those wild characters of exciting adventures!. Nevertheless we going desirous of reaching the good port in the province of Newfoundland, maybe late afternoon)!.

(continuação) (continuation)

Tony Borie, July 2018…

…rumo ao Atlântico Norte!. (towards the North Atlantic)!.

…vamos viajar para norte, na esperança de ver o resto do planeta que fica ao sul!. Levamos a esperança de conviver com pessoas de diferentes nacionalidades, de todas as idades, de atravessar diferentes regiões, viajar por estradas remotas ou até navegar sobre o oceano gelado do Atlântico Norte, no Canadá!.. (Let’s travel north, hoping to see the rest of the planet to the south!. We hope to get along with people of different nationalities, of all ages, crossing different regions, traveling on remote roads or even surfing on the icy ocean of the North Atlantic in Canada)!.

…queremos aprender a cultura, ver a região onde os nossos avós Portugueses, que foram os primeiros povos europeus a enviarem expedições à pesca e salga do peixe bacalhau, apesar de constantemente serem perseguidos por corsários de várias paragens, naquelas águas profundas, frias e tépidas do mar do Atlântico Norte, sobretudo na agora província do Labrador, nas condições bio-oceanográficas, como as correntes frias polares, misturando-se com as águas quentes da corrente do Golfo a sul, que são favoráveis ao desenvolvimento de micro organismos que fazem com que o peixe bacalhau se agrupe em zonas relativamente próximas da costa, sobretudo o Grande Banco da Terra Nova, aproveitando as imensas plataformas submarinas, algumas a pequenas profundidades, onde este peixe se concentra, procurando a sua alimentação preferida que são os cardumes de pequenas espécies, especialmente as lulas!. (We want to learn the culture, to see the region where our Portuguese grandparents, who were the first European peoples to send expeditions to fishing and salting codfish, despite constantly being pursued by corsairs of several stops, in those deep, cold waters North Atlantic sea, especially in the now Labrador province, in the bio-oceanographic conditions, such as the cold polar currents, mixing with the warm waters of the Gulf stream to the south, which are favorable to the development of micro organisms that make the cod fish group in areas relatively close to the coast, especially the Great Bank of Newfoundland, taking advantage of the immense underwater platforms, some to small depths, where this fish concentrates, looking for its favorite feeding that are the shoals of small species, especially the squid)!.

…vamos de novo dormir com fluxos de filtragem de luz em torno das coberturas das janelas da nossa “White Fox”, (camionete de viajem), quando é dia, tarde ou noite em outras latitudes!. Vamos de novo fotografar os tons brilhantes da água, do gelo, o cenário verde das montanhas, as cores acentuadas e os movimentos de alguns animais e aves sevagens, assim como a cor daquele céu sem fim, lá no norte!. Caminhar no Parque Nacional Gros Morne, na aldeia de Twillingate, ou na de Portugal Cove, na cidade de St. John’s, ou nas colónias de gansos no Cabo St. Mary!. (Let’s sleep again with streams of light filtering around the window coverings of our “White Fox” (travel van), when it’s day, afternoon or night in other latitudes!. Let’s once again photograph the shimmering tones of water, ice, the green scenery of the mountains, the sharp colors and movements of some sevage animals and birds, as well as the color of that endless sky up there in the north!. Walk in the Gros Morne National Park, in the village of Twillingate, or in Portugal Cove, in the town of St. John’s, or in the geese colonies on Cape St. Mary)!.

…falar com as pessoas, ver ao vivo o modo de vida dos habitantes das províncias de Newfoundland (Terra Nova) e Labrador, onde a indústria pesqueira, outrora a sua pedra fundamental, continua sendo uma parte importante da sua economia, onde a colheita combinada de peixes como bacalhau, arinca, alabote, arenque e cavala, ou mariscos, como caranguejo, camarão e amêijoas, ainda representam um valor de vários milhões de dólares ao ano!. Todavia o turismo, indústrias importantes como a mineração, produção de petróleo e a fabricação, entre outras actividades, trouxeram de novo a vida ao povo desta região!. (To talk to people, to see live the way of life of the inhabitants of the provinces of Newfoundland and Labrador, where the fishing industry, once its cornerstone, remains an important part of its economy, where combined harvesting of fish such as cod, haddock, halibut, herring and mackerel, or shellfish, such as crab, shrimp and clams, still account for several million dollars a year!. However, tourism, important industries such as mining, oil production and manufacturing, among other activities, have brought life back to the people of this region)!.

…o nosso interesse pelas províncias de Newfoundland (Terra Nova) e Labrador, foi despertado pelas descrições da paisagem acidentada e do clima imprevisível que impressionam especialmente!. E claro, ver as raízes dos nossos antepassados que, no final do século XV, na tentativa de encontrar o caminho marítimo para a Índia por oeste, os aventureiros navegadores portugueses, acabaram por se deparar com a região da Terra Nova, que hoje pertence à província de Newfoundland (Terra Nova) e Labrador, no Canadá, que anos depois seria o ponto de partida para a pesca do peixe bacalhau, dos pescadores portugueses, lá no Atlântico Norte!. (Our interest in the provinces of Newfoundland and Labrador was awakened by descriptions of the rugged landscape and unpredictable weather that especially impress!. And of course, we see the roots of our ancestors who, in the late fifteenth century, in the attempt to find the maritime route to India by the west, Portuguese adventurous navigators eventually came across the region of Newfoundland and Labrador (Canada), which years later would be the starting point for fishing for codfish from Portuguese fishermen in the North Atlantic)!.

…nesta avançada idade, vamos tendo a liberdade de escolher as nossas actividades, tornando-as tão relaxadas ou cheias de acção, como cada pessoa queria que a sua experiência fosse!. Quando em qualquer momento parar-mos para dormir ou retemperar forças, sempre haverá alguém por perto, com entusiasmo para se juntar a nós, cuja energia positiva vamos sentir em cada novo avistamento da vida selvagem ou de uma foto capturada, que exemplificará a imagem de uma aula de cultura que a cada instante a natureza nos dá!. Vamos ver e pensar outras regiões, descobrir a história do Atlântico Norte, com óptimos lugares de cultura indígena, super animados e gratos por fazer parte dela!. (At this advanced age, we are given the freedom to choose our activities, making them as relaxed or action-packed as each person wanted their experience to be!. When we stop at any moment to sleep or re-energize, there will always be someone around, enthusiastically joining us, whose positive energy we will feel in each new wildlife sighting or a captured photo, which will exemplify the image of a class of culture that nature gives us at every moment!. Let’s see and think other regions, discover the history of the North Atlantic, with great places of indigenous culture, super animated and grateful to be part of it)!.

…por uns dias vamos estar afastados do vosso convívio, talvez algumas notícias de lugares mais especiais irão surgir, mas de uma forma simples!. Todavia, fica a promessa de que quando regressar-mos de novo à nossa residência aqui no estado da Florida, vão ter conhecimento de toda a nossa aventura, de cada momento, do começo e do fim de um outro dia, que por certo será fantástico!. (For a few days we will be away from your acquaintance, maybe some news of more special places will come up, but in a simple way!. Nonetheless, there is the promise that when we return to our residence here in Florida, you will be aware of our entire adventure, of every moment, of the beginning and end of another day, which will certainly be fantastic).

Tony Borie, June 2018.

…the companion “Boia” (Floater)!

…the companion “Boia” (Floater)!

…o companheiro “Bóia”!. (The companion “Boia” (Floater)!.

…o uniforme que usávamos era feito em pano amarelo, como era o nosso futuro, o nosso sentimento, ou o mêdo que sentíamos a cada momento!. Algum tempo depois, chegaram tropas com um uniforme diferente, a cor era verde azeitona!. Diziam até que era feito de tecido que melhor se adaptava ao clima tropical, podia ser verdade mas, estes novos militares, que usavam essa cor de uniforme, logo foram baptizados de “Periquitos”!. (The uniform we wore was made of yellow cloth, as was our future, our feeling, or the fear we felt every moment!. Some time later, troops arrived in a different uniform, the color was olive green! They even said that it was made of fabric that best suited the tropical climate, it could be true, but these new soldiers, who wore that uniform color, were soon baptized as “Parakeets”)!.

…imediatamente surgiu um fenómeno típico na sociedade militar daquela época que era, “a velhice é um posto”!. Portanto, esses militares podiam ser pessoas com bastante instrução de combate, com escola superior, proferirem palavras com bastante senso que, todas essas qualidades não tinham qualquer interesse no entender do outro militar, que usava uniforme amarelo!. A razão era, as palavras vinham da boca de um “Periquito”!. (Immediately a typical phenomenon emerged in the military society of that era which was, “old age is a post”!. Therefore, these soldiers could be people with enough combat instruction, with high school, to utter words with enough sense that, all these qualities had no interest in the understanding of the other military, who wore a yellow uniform!. The reason was, the words came from the mouth of a “Parakeets”)!.

…o exemplo, não era bem assim, mas ajustava-se quase a nós, militares Europeus que estávamos em África, entre outras coisas, impondo restrições à população nativa, querendo modificar o seu meio de vida, sobretudo a sua religião!. Era quase impossível isso acontecer, havia adultos, cujos costumes lhes foram ensinados pelos seus progrenitores, em que eles acreditaram e ouviram, quando ainda eram crianças!. Na nossa modesta opinião, nós estávamos em África a atrapalhar, única e simplesmente!. Portanto, também na opinião dos militares que usavam uniforme de cor amarela, que eram mais velhos, talvez alguns até se considerassem progrenitores, aqueles “Periquitos”, só vinham atrapalhar!. (The example, it was not quite like that, but it fit almost to us, the European military what were in Africa, among other things, imposing restrictions on the native population, wanting to change their livelihood, especially their religion! It was almost impossible for this to happen, there were adults, whose customs were taught them by their progrenitors, in which they believed and heard, when they were still children!. In our modest opinion, we were in Africa to hinder, simply and simply!. So, too, in the opinion of the military who wore yellow uniforms, who were older, perhaps some even considered themselves progrenitors, those “Parakeets”, they were only in the way)!.

…nós, que já por ali andávamos a algum tempo, podemos dizer que quem baptizou estes novos militares com uniforme de cor verde azeitona, de “Periquitos”, foi um companheiro, cujo nome de guerra era “Bóia”, nome que lhe foi colocado porque, sendo oriundo da região do Alentejo em Portugal, falava devagar, com sotaque bastante popular que só ele sabia, muito difícil de imitar!. No seu vocabulário existia um conjunto de palavras que só ele e mais uns quantos entendiam, como por exemplo, quando se aproximava a hora da refeição dizia:

– hei compadres, está na hora de ir à “bóia”!.

…a “bóia”, na sua linguagem era a comida e, um certo dia, quando chegou ao aquartelamento uma viatura militar com tropas vindas da capital Bissau, vestidos com o novo uniforme de cor verde azeitona, ele, o “Bóia”, sorrindo, fazendo crescer o seu grande bigode, retorcido nas pontas, pois era tropa dos velhos, pertencendo a uma Companhia de Infantaria, cujo capitão comandante, batia nos soldados e furriéis, disse:

– oh raio, parecem periquitos!.

…o nome pegou!.

(We who have been around for some time, we can say that whoever baptized these new soldiers in olive green uniform of “Parakeets”, was a companion, whose name of war was “Boia”, (Floater), name that was placed because, coming from the Alentejo region in Portugal, he spoke slowly, with a very popular accent that only he knew, very difficult to imitate!. In his vocabulary there was a set of words that only he and a few others understood, as for example, when the hour of the meal approached, he said:

– hey buddies, it’s time to go to the “boia” (floater)!.

The “boia” (floater), in its language was the food and, one day, when a military vehicle arrived with the troops from the capital Bissau, dressed in the new olive green uniform, he, the “Boia” (Floater), smiling, growing his big mustache, twisted at the tips, for it was a troop of the old men, belonging to an Infantry Company, whose captain commander, beat the soldiers and sergeants, said:

– Oh man, they look like “Parakeets”!.

The name caught)!.

…o excelente companheiro, soldado de combate, “Curvas, alto e refilão”, (de quem já aqui falámos por diversas vezes), um certo dia, à hora da refeição, falando a respeito deste capitão que batia nos soldados e furriéis, pega no recipiente onde a comida vinha para a mesa, parecido com uma simples bacia de alumínio, que tanto servia para se usar em comida sólida, sopa, café ou vinho, e diz:

– cabrão!. “Ca granda filho da puta”!. Se me batesse, enfiava-lhe com esta bacia cheia de merda naquele focinho, que até lhe partia os cornos!.

…era asim o homem!. Quando se lhe desprendia a língua, era melhor fugir-mos!.

…para nossa salvação andava sempre por perto o soldado telegrafista “Trinta e Seis”, (de quem também já aqui falámos por diversas vezes), baixo e forte na estatura, que quando caminhava, alguns diziam que “rolava”, o que ele respondia levantando o dedo do meio da mão direita, num gesto com tendências para o herótico, logo lhe disse:

– cala-te homem de Deus!. Tem respeito, isto é a mesa onde todos comem!.

(The excellent companion, combat soldier, “Curvas, alto e refilão”, (high and complicative, of whom we have already spoken several times), a certain day, at the time of the meal, talking about this captain who beat the soldiers and sergeants, picks up the container where the food came to the table, like a simple aluminum bowl, which was so good to use in solid food, soup, coffee or wine, and says:

– Bastard!. What a great son of a bitch! If he hit me, I would thrust him into this bowl full of shit on that muzzle, which even broke his horns!.

It was like the man!. When his tongue slid, we had better run away!.

For our salvation, the telegraph soldier “Thirty-Six” (of whom we have spoken several times) was always around, low and strong in stature, that when he walked, some said that he “rolled”, which he answered by raising the middle finger of his right hand in a gesture with tendencies towards the heroic, then said:

– Shut up, man of God!. You have respect, this is the table where everyone eats)!.

…com todos estes pormenores, estamos a desviar-nos da verdadeira história, portanto tudo começa aqui, cá vai!.

…havia uma pequena ponte, distante do aquartelamento, na estrada, que mais parecia um carreiro, que ia dar à aldeia de Cutia, guardada durante o dia por uma secção (grupo) de combate!. Na época das chuvas, formava-se um grande pântano, em redor do que chamavam “Bolanha do Sul”, com alguns quilómetros de extensão, mas onde se transitava com algum cuidado pela estrada de terra, que era um pouco mais alta, onde a água tinha pouca ou quase nenhuma altura e, quem conhecia o caminho ia e vinha com o mínimo de problemas!.

(With all these details, we are diverting from the true story, so everything starts here, here it goes!.

There was a small bridge, far from the barracks, on the road, which looked more like a path, which was going to give the village of Cutia, guarded during the day by a section (group) of combat! In the rainy season, a large marsh formed around what they called “Bolanha do Sul”, a few kilometers in length, but where it moved with some care on the dirt road, which was a bit higher, where the water had little or almost no height and who knew the way went and came with the least problems)!.

…a zona onde a ponte estava localizada era seca!. Os militares destacados para esta tarefa de segurança da ponte, iam para lá pela manhã, regressando quase noite, numa viatura militar, onde além de armas, munições e aparelhagem de comunicação, levavam comida para todo o dia!. Aos poucos, construíram uma espécie de pequena fortaleza, era um abrigo cujas paredes eram feitas com sacos de terra, coberto com uma estructura de troncos de palmeira, algumas folhas de zinco, que por sua vez estavam também cobertas com sacos de terra!. (The area where the bridge was located was dry!. The soldiers assigned to this task of security of the bridge, went there in the morning, returning almost night, in a military vehicle, where besides arms, ammunition and equipment of communication, they took food for all day!. Gradually they built a kind of small fortress, a shelter whose walls were made of earthen bags, covered with a structure of palm trunks, a few sheets of zinc, which in turn were also covered with earthen bags)!.

…ali passavam o dia, onde entre outras coisas, identificavam quem passava na ponte, visitavam uma aldeia próxima, onde alguns naturais cultivavam as terras pantanosas e criavam alguns animais, sendo pessoas pacatas, pelo menos pareciam, no entanto não havia pessoas novas, eram só velhos e crianças, mesmo crianças!. Havia até alguns militares que queriam fazer esta segurança à ponte, pois no regresso traziam aguardente de palma, que talvez comprassem aos naturais!. (There they spent the day, where, among other things, they identified who was on the bridge, visited a nearby village, where some of the natives cultivated the marshy lands and raised some animals, being calm people, at least they seemed, nevertheless there were no new people, they were just old and children, even children!. There were even some soldiers who wanted to make this safety to the bridge, because on the return they brought palm brandies, which they might buy from the natives)!.

…o companheiro “Bóia”, algumas vezes, no aquartelamento falando connosco, admirava-se de na tal aldeia próxima da ponte, não haver pessoas novas, mas havia crianças, mesmo crianças e, dizia-nos torcendo o bigode:

– ali existe “marosca”!.

…”marosca”, na sua linguagem, queria dizer que qualquer coisa não baitia certo!.

(The companion “Boia” (Floater), sometimes in the barracks talking to us, we were amazed that in such a village near the bridge, there were no new people, but there were children, even children and, twisting his mustache was saying:

– there exists “marosca”!.

“Marosca”, in its language, meant that anything was not right!.

…nesse dia, o nosso companheiro “Bóia”, é destacado para com outros militares ir prestar segurança à referida ponte!. Chegam, inspecionam o local, normalmente deixavam alguns sinais combinados, em certos pontos estratégicos para saberem se alguém tinha usado a ponte ou a pequena fortaleza durante a noite!. Nesse dia sim, os sinais combinados estavam parcialmente destruídos, alguém por ali tinha andado!. Verificando melhor, havia sinal de pegadas, de sandálias que os militares conheciam, pois faziam parte do uniforme dos guerrilheiros, logo conhecidas!. (On that day, our companion “Boia” (Floater), is detached to other soldiers to provide security to said bridge!. They arrive, inspect the site, usually leave some signs combined, at certain strategic points to know if someone had used the bridge or the small fortress at night!. That day, yes, the combined signs were partially destroyed, someone had walked there! Checking better, there was a sign of footprints, sandals that the military knew, because they were part of the uniform of the guerrillas, soon known)!.

…ficam em estado de alerta, comunicando ao aquartelamento o sucedido!. Recebem ordens para continuarem com algum cuidado, que alguma tropa iria imediatamente para lá, reforçar a zona da ponte, fazendo uma patrulha mais profunda nas redondezas!. (Are in a state of alert, communicating to the barracks what happened!. They are given orders to carry on with some care, that some troops would immediately go there, reinforce the zone of the bridge, making a deeper patrol in the vicinity)!.

…o “Bóia”, com o cigarro no canto da boca, com o seu ar bonacheirão, com a mão direita, pois a esquerda segurava a espingarda metralhadora G-3, tira o cigarro da boca, molha os dedos com saliva, coloca de novo o cigarro na boca, torcendo as pontas do seu bigode, diz baixinho:

– deixa lá ver o que estes “compadres”, andaram por aqui a fazer durante a noite!.

(The “Boia” (Floater), with the cigarette in the corner of his mouth, with his bonhomme air, with his right hand, because the left hand held the G-3 machine gun, took his cigarette out of his mouth, wet his fingers with saliva, put the cigarette in his mouth again, twisting the ends of his mustache, he says softly:

– let’s see what these “compadres” (relatives) have been doing here for the night)!.

…enquanto os militares se encontravam quase todos juntos a discutir a situação, o “Bóia”, com passo lento mas firme, começa a atravessar a ponte com a espingarda metralhadora nas mãos, pronta a disparar, quase como se andasse à caça aos coelhos em alguma herdade, lá na província do seu Alentejo quando, mais ou menos ao meio da ponte, mais perto do final, possívelmente sentiu qualquer coisa a tocar-lhe na perna, prendendo-lhe o movimento!. O infeliz companheiro “Bóia”, não viu mais nada!. Sem se aperceber accionou um engenho explosivo que lhe destruíu quase todo o corpo!. (While the military were almost all together discussing the situation, the “Boia” (Floater), with a slow but firm step, began to cross the bridge with the machine gun in his hands, ready to fire, almost as if hunting the rabbits in some homestead, there in the province of his Alentejo when, more or less in the middle of the bridge, closer to the end, he possibly felt something touching his leg, catching his movement! The unfortunate companion “Buoy”, did not see anything else!. Without realizing it triggered an explosive device that destroyed almost the entire body)!.

…a sua alma fugiu, sabe-se lá para onde!. O seu corpo foi recolhido aos bocados!. Mais soldados foram atingidos pelos estilhaços!. Quando chegaram os reforços, que aumentaram o andamento ao ouvirem o rebentamento do engenho explosivo, deparam com toda esta cena!. Parte dos soldados choravam, tentando recolher os restos da pessoa a quem carinhosamente chamavam “Bóia”!. (Your soul has fled, you know where! Your body was collected in the bites!. More soldiers were hit by the shrapnel!. When the reinforcements arrived, they increased their tempo when they heard the explosion of the explosive device, they come across all this scene! Some of the soldiers were crying, trying to collect the remains of the person they affectionately called “Boia” (Floater)!

…tudo isto nos ficou no pensamento pois, quando chegaram ao aquartelamento, com o resto do corpo do infeliz “Bóia”, tínhamos acabado de decifrar uma mensagem, dirigida à Companhia de Infantaria, a que este infeliz companheiro pertencia, comunicando que se deviam de apresentar num dos próximos dois dias no Comando Territorial da Província, na capital Bissau, a fim de embarcarem para Portugal, pois tinham completado o tempo de serviço na então Província Colonial da Guiné, que naquela época era de dois anos!. (All this was in our minds, for when we arrived at the barracks with the rest of the body of the unfortunate “Boia” (Floater), we had just deciphered a message addressed to the Infantry Company to which this unfortunate companion belonged, were to present in one of the next two days in the Territorial Command of the Province, in the capital Bissau, in order to embark to Portugal, since they had completed the time of service in the then Colonial Province of Guinea, that at that time was two years)!.

…esperaram pela chegada da outra força militar que os vinha substituir naquele cenário de guerra, que veio no mesmo barco que os havia de levar de regresso a Portugal onde, com a vontade exercida pelos seus companheiros, junto do comando a que nós pertencíamos e, com a nossa interferência e colaboração, responsabilizando-nos entre todos pelo pagamento, pois no tempo do Portugal Colonial, todas as Províncias do então Ultramar, no entender dos então governantes, eram o mesmo Portugal, portanto os militares mortos em combate, única e simplesmente, quando era possível recuperar os seus corpos, ficavam enterrados na então província do Ultramar onde tinham morrido!. Assim o infeliz companheiro “Bóia”, regressou a Portugal, mas dentro de um caixão!.
(They waited for the arrival of the other military force that came to replace them in that scene of war, that came in the same boat that would take them back to Portugal where, with the will exerted by their comrades, with the command to which we belonged and, with our interference and collaboration, making us all responsible for the payment, because in the time of Colonial Portugal, all the Provinces of the then Ultramar, in the opinion of the then rulers, were the same Portugal, therefore the soldiers killed in combat, unique and simply, when it was possible to recover their bodies, they were buried in the then province of Overseas where they had died! Thus the unfortunate companion “Boia” (Floater), returned to Portugal, but inside a coffin)!.

…era esta a guerra onde estávamos envolvidos!. Não havia regras de sobrevivência, o militar estava exposto até ao último minuto da sua estadia, sendo substituído por outra força militar em pleno cenário de combate, não tendo qualquer chance, mesmo que houvesse leis, não havia meios de alojamento na capital Bissau para que fosse possível um pequeno restabelecimento uns dias antes de regressar à Metrópole, como então se dizia!. (This was the war where we were involved!. There were no rules of survival, the soldier was exposed until the last minute of his stay, being replaced by another military force in full combat scenario, not having any chance, even if there were laws, there was no means of accommodation in the capital Bissau so that a small reestablishment was possible a few days before returning to the Metropolis, as it was said)!.

…alguns, favorecidos pela sorte, que regressaram vivos, apresentavam-se à família, no cais da Alcântara em Lisboa, com a roupa rota e suja, as botas também rotas, com o cabelo comprido, com grandes barbas e bigodes, os dentes negros, mas mesmo negros, vários insectos minúsculos em determinadas zonas do corpo, cara de selvagens, falando pouco, desconfiados, deprimidos, olhando sempre para o chão, algumas encurrilhas na testa, em sinal e na expectativa do pior, não queriam que lhes tocassem no corpo, admirados por verem tantas pessoas trajando civilmente, pensando que ainda estavam debaixo de um abrigo, que os guerrilheiros iam atacar, que o arroz que iam comer lhes fazia os intestinos andarem parados por dias, com dores constantes na região do estômago e que só de facto algum excesso de álcool, entre outras coisas, lhes fazia ter uma vida considerada “normal”!. (Some, favored by luck, who returned alive, showed up at the Alcantara pier in Lisbon, their clothes broken and dirty, their boots also broken, their hair long, their beards and mustaches, their teeth black, but even black, several tiny insects in certain the face of the savage, talking little, suspicious, depressed, always looking at the floor, some curves on the forehead, in sign and the expectation of the worst, did not want to be touched in the body, amazed to see so many people in civilian clothes, thinking that they were still under a shelter, that the guerrillas were going to attack, that the rice they were going to eat made their intestines walk for days, with constant pains in the region of the stomach and that only in fact some excess of alcohol, among other things , made them have a life considered “normal”)!.

…alguns, todos estes sintomas não mais sairam do seu corpo e, passado mais de cinquenta anos, os que ainda estão vivos, que são homens com um “H” muito grande, ainda apresentam por vezes todo este aspecto, também por vezes alteram um pouco a sua voz de revolta!. Algumas pessoas da nova geração, onde se incluem muitos políticos, ao verem-nos viram a cara, riem-se baixinho, dizendo:

– deixa lá esse desgraçado falar, pois aquilo é só stress e saudades da guerra!.

(Some, all these symptoms have not left his body and, after more than fifty years, those who are still alive, who are men with a very large “M”, sometimes present all this aspect, sometimes also they alter their rebellious voice a little! Some people of the new generation, where many politicians are included, when they see us they see the face, they laugh at themselves, saying:

– Let that bastard speak, because that is only stress and miss the war)!.

…oxalá que o “Curvas, alto refilão”, ainda esteja vivo, mas que não leia este texto, porque depois de ouvir todas estas considerações do amigo e companheiro “Cifra”, que com ele sofreu o mêdo e a angústia da Guerra Colonial Portuguesa, é capaz de vir por aí, maldizendo tudo e todos, pois era a pessoa que mais bem preparada estava naquele tempo, para enfrentar aquele conflito, pelo menos na sua reles linguagem!. (I hope the “Curvas, alto e refilão”, (high and complicative), is still alive, but do not read this text, because after listening to all these considerations of the friend and companion “Cifra”, who with him suffered the fear and anguish of the Portuguese Colonial War, able to come around, cursing everyone and everything, for he was the person best prepared at that time, to face that conflict, at least in his language)!.

Tony Borie, June 2018.

…our train!

…our train!


…o nosso combóio!. (our train)!.

…quando atingimos um certo número de anos de vida, é normal pensar que o tempo está a passar rápido demais!. Então saímos de casa, caminhemos, andamos de bicicleta, se possível viajamos, tiramos muitas fotos, rimos, tal como se nunca nada de mal tivesse acontecido na nossa vida!. Cada sessenta segundos que passamos tristes e deprimidos, é um minuto de felicidade que nunca conseguiremos fazer mais voltar!. Com esta idade, já não sentimos medo de que a nossa vida termine, devemos sim, ter algum medo de que ela nunca comece e, nunca procuramos defeitos dentro de nós, nunca procuramos culpar alguém pois, as coisas menos agradáveis acontecem, andam por aí!. (When we reach a certain number of years of life, it is normal to think that time is passing too fast!. So we left the house, walked, cycled, if possible we traveled, we took lots of pictures, we laughed, as if nothing bad had ever happened in our life! Every sixty seconds we’ve gone through sad and depressed, it’s a minute of happiness that we’ll never get back! At this age, we are no longer afraid of our life ending, we must have some fear that it never begins and we never look for defects within ourselves, we never try to blame someone because, the less pleasant things happen, they go around)!.

…hoje acordámos cedo, tal como acontece quase todos os dias, mas muito animados com o que conseguimos fazer antes de nos deitar!. Consideramo-nos uma pessoa importante, com responsabilidades para cumprir pois, o nosso trabalho de hoje é, escolher o tipo de dia que vamos ter!. Abrimos a janela, o tempo está de chuva, não vamos ficar triste, vamos agradecer que a área verde em volta da casa vai ser regada de graça!. (Today we woke up early, just like almost every day, but very excited about what we were able to do before we went to bed!. We consider ourselves an important person, with responsibilities to fulfill because, our job today is, to choose the type of day that we will have!. We open the window, the weather is rain, we will not be sad, we will thank that the green area around the house will be watered for free)!.

…como o dia está de chuva, sentamo-nos em frente ao computador, vamos lembrar o “nosso combóio”!. Sim, todos tivémos o “nosso combóio”, todavia os mais idosos, lembram aquelas maravilhosas máquinas a vapor, pretas, arrogantes, com algumas partes amarelas, vermelhas ou douradas, com rodas gigantes de ferro reluzentes, sobre uns carris assentes em traves de madeira, que quando passavam, deixavam uma nuvem de fumo, que saía de uma artística chaminé, sem esquecermos o apito, cujo som podia alegre ou angustiante!. (As the day is rainy, we sit in front of the computer, let’s remember the “our train”!. Yes, we all had the “our train”, but the older ones, remember those wonderful steam engines, black, arrogant, with some yellow parts, red or gold, with gigantic wheels of gleaming iron, on rails set in wooden beams, who, as they passed by, left a cloud of smoke, coming out of an artistic chimney, not forgetting the whistle, whose sound could be happy or distressing)!

…já é a segunda vez que carinhosamente, lembramos aqui o “nosso combóio”, passava sobre os carris da linha do então “Ramal de Aveiro”, hoje chamam-lhe “Linha do Vouga”, (onde transitam por lá umas máquinas feias, modernas, a gasóleo, aberrantes, parecendo-se como uma simples camionete)!. (Is already the second time that affectionately, we remember here “our train”, passed on the rails of the line of the then “Aveiro branch”, today they call it “Vouga line”, ugly, modern, diesel, aberrant, looking like a simple van)!

…foi aberto à exploração no distante ano de 1911, em “bitola métrica”, unindo aldeias e populações perdidas, entre a cidade de Aveiro e a pequena localidade de Sernada do Vouga, onde entre outras coisas, era o nosso “relógio”, não só para nós, como para os habitantes de todo o extenso vale, onde existia a nossa aldeia do Vale do Ninho D’Águia, naquela encosta agreste da montanha do Caramulo, pois era ele, o “nosso combóio”, que marcava as horas, apitando quase todos os dias à mesma hora!. (Was opened to exploration in the distant year of 1911, in “meterola”, joining villages and lost populations, between the city of Aveiro and the small town of Sernada do Vouga, where among other things, was our “clock”, not only for us, but also for the inhabitants of the vast valley, where our village existed in the Valley of the Eagle Nest, on the rugged hillside of the Caramulo mountain, for it was “our train” hours, whistling almost every day at the same time)!.

…mais de setenta anos depois, fechamos os olhos e estamos a vê-lo, rolando sobre a encosta daquele extenso vale, fazendo parte do cenário da aldeia do Vale do Ninho D’Águia!. O maquinista apitava a nosso pedido, quando fazíamos caminhadas pela sua linha, que na altura era proibido, íamos na companhia do “piloto”, o nosso cão fiel e amigo, que já tinha conhecido outros donos, tal como “o nosso combóio”, pois dizem que pertenceu até ao ano de 1947 à companhia do Vale do Vouga, propriedade de uma companhia Francesa, depois à CP, e actualmente é da responsabilidade de uma companhia moderna, a que chamam “Refer”!. (More than seventy years later, we close our eyes and we see it, rolling on the slope of that long valley, being part of the scenery of the village of the Valley of the Eagle Nest!. The driver whistled at our request, when we were walking on his line, which was forbidden at the time, we were in the company of the “pilot”, our faithful dog and friend, who had already met other owners, such as “our train”, because they say that it belonged until 1947 to the Vouga Valley company, owned by a French company, then to the CP, and it is now the responsibility of a modern company, called “Refer”)!.

…para nós, sempre foi lindo, mas algumas vezes tornava-se rude, feio e até incendiário, quando no verão, as “fragolas” em chama viva, que saíam da sua chaminé, faziam com que a tia Gracinda, gritasse em plena força dos seus pulmões:

– maldito, que me vais queimar outra vez a cabana da palha!.

…mas ele avisava!. Quando “roncava” pela encosta acima, a caminho da montanha, virado ao norte, em alguns dias de calor sufocante, quando não fazia chuva ou nevoeiro!.

(For us, it was always beautiful, but sometimes it became rude, ugly and even incendiary, when in summer the “fragolas” (fire embers), in living flame that came out of its chimney made Auntie Gracinda scream in full strength of your lungs:

– Damn you, you’re going to burn me the straw hut again!

But he warned!. When he “snored” up the slope, on the way to the mountain, facing north, on some days of sweltering heat, when there was no rain or fog)!

…também lembramos os “carrilanos”, que eram uns homens, que tratavam os seus carris com carinho!. Nós andando por ali, também ajudávamos, indo buscar água para eles, a uma fonte que por lá havia, em troca, dávam-nos alguns pregos com datas, onde já tínhamos uma excelente colecção!. Era proibido circular pela linha, nós adorávamos fazê-lo, não só circulando, como nos sentáva-mos na areia ou pedras que a formavam e, encostando a cabeça aos carris, ouvíamos, quando o combóio vinha perto!. (We also remember the “Carrilanos”, who were men, who treated their rails with affection!. We walked around, we also helped, getting water for them, to a fountain that there was, in return, gave us some nails with dates, where we already had an excellent collection!. It was forbidden to circulate along the line, we loved to do it, not only circling, but also sitting on the sand or stones that formed it, and leaning our head against the rails, we heard, when the train was coming)!.

…concentrando-nos, recordamos, talvez quase sonhando, uma daquelas viajens agora imaginárias, no “nosso combóio” que, todos os anos na época de verão, fazíamos entre a vila de Mourisca do Vouga e a cidade de Aveiro, que era o trajecto que a nossa avó materna Agar usava, quando em criança nos levava, para a praia do oceno Atlântico, na aldeia da Costa Nova, cá vai!. (Concentrating, we recall, perhaps almost dreaming, one of those journeys, now imaginary in “our train,” which we did every year during the summer season between the village of Mourisca do Vouga and the city of Aveiro, which was the route that our maternal grandmother Agar, wore when she took us as a child to the Atlantic Ocean beach in the village of Costa Nova, here she goes)!.

…é manhã, estamos no ano de 1949 ou 1950, olhamos o relógio da estação, a nossa avó Agar, diz-nos que são 9h15, que estava quase na hora do combóio chegar!. O ambiente é encantador, repleto de movimento!. Pelo cais da estação avistam-se caixotes e outras mercadorias, assim como algumas pessoas!. Andam atarefadas, trazem sacas pela mão, dois homens conversam, um traz o guarda chuva pendurado no pescoço, entre a samarra e o seu corpo, uma senhora traz um garoto pela mão, que procura largar a mão da mãe e fugir, quer ir brincar para a área onde há carvão espalhado pelo chão, diversas rimas de traves de madeira, alguns carris, tanto novos, como usados, um pouco ao lado, no desvio da linha, sobre os carris estão umas tantas carruagens, típicas do Vale do Vouga, ainda com varandins, mistas de primeira e terceira classe!. (It’s morning, we are in the year 1949 or 1950, we look at the clock from the station, our grandmother Agar, tells us it’s 9:15, it was almost time for the train to arrive!. The environment is charming, full of movement!. On the quay of the station you can see boxes and other goods, as some people!. Are busy, carry sacks by hand, two men talk, one has the umbrella hanging from the neck, between the samarra (coat) and his body, a lady brings a boy by the hand, who tries to drop his mother’s hand and run away, wants to go play to the area where there is charcoal scattered on the floor, several rhymes of wooden beams, some rails, both new and used, a little next, in the deviation of the line, on the rails are a few carriages, typical of the Vouga Valley, still with varandins (balcony), mixed of first and third class)!.

…o chefe da estação, sai com uma bandeira na mão, ordena para as pessoas se deslocarem para longe dos carris!. Chega o combóio, composto por um vagão tipo Vale do Vouga, dos abertos de dois eixos, dois vagões também tipo Vale do Vouga, cobertos, também de dois eixos, mais dois semelhantes ao primeiro, três carruagens Vale do Vouga, de varandins de terceira classe e furgão e, na rectaguarda outra Vale do Vouga, mas mais bonita, com uma cor diferente, cremos que é verde azeitona com umas letras desenhadas a ouro, é daquelas transformadas, que podem ser de primeira ou terceira classe!. (The station master, comes out with a flag in his hand, orders people to move away from the rails! The train arrives, consisting of a Vouga Valley car, two open axles, two Vouga Valley cars, covered with two axles, two similar to the first, three carriages of the Vouga Valley, of third-class varandins (balcony) and van, and in the rear another Vouga Valley, but more beautiful, with a different color, we believe that it is olive green with letters drawn to gold, it is of those transformed, that can be first or third class)!.

…com o fumo que por ali havia não conseguimos ver bem qual o tipo ou número de locomotiva, mas estamos em crer que era uma CP E96 ou 97!. O maquinista, sujo de carvão na cara, puxa de um grande lenço tabaqueiro, que trazia no bolso de trás, limpa a cara e assoa o nariz, sai do seu posto, desce para o chão, com um grande martelo na mão, rodeia a locomotiva, inspeciona as rodas, sobe de novo para o seu interior, verifica o sistema, nomeadamento o nível de água, está um pouco baixo, mas encolhendo os ombros, pensa que o trajecto até à estação de Águeda é a descer, não vai precisar de muita água!. (With the smoke that there was not able to see well what type or number of locomotive, but we believe that it was a CP E96 or 97!. The driver, smudged of charcoal on his face, pulls out a large tobacco handkerchief, which he carried in his back pocket, wipes his face and blows his nose, leaves his post, descends to the ground with a large hammer in his hand, locomotive, inspects the wheels, climbs up again, checks the system, names the water level, is a bit low, but shrugging, thinks that the route to Águeda station is going down, will not need of lots of water)!.

…na área, existe cheiro a carvão queimado e algum fumo!. O combóio, parou uns minutos no cais da estação, nós, juntamente com outras pessoas, entrámos pela mão da nossa avó Agar, os homens de serviço na estação carregam alguma mercadoria!. O chefe da estação apita, dando o sinal, o combóio põe-se em movimento, o maquinista acelera um pouco, sai muito vapor de ambos os lados da locomotiva, o que faz com que o chefe da estação, com a bandeira numa mão e a outra coçando a testa, gritar palavras obscenas!. (In the area, there is smell of burnt coal and some smoke!. The train stopped for a few minutes on the dock of the station, we, along with other people, entered by the hand of our grandmother Agar, the men of service in the station carry some merchandise!. The head of the station whistles, giving the signal, the train sets in motion, the driver accelerates a little, there is a lot of steam coming from both sides of the locomotive, which causes the station master, with the flag in one hand and the other scratching her forehead, screaming obscene words)!.

…que pelo ar do maquinista, a locomotiva não desiludia, pois lançou o combóio em grande parte do percurso a 40 ou 50 km/h, todavia nos primeiros minutos de andamento, não deu muita velocidade ao combóio, pois todo o sistema está com temperatura alta, tinham acabado de passar pela zona onde existe a parte mais acidentada do percurso, porque depois do viaduto sobre o ribeiro do Marnel, alguns campos de milho e de linho, até encontrar o apeadeiro de Valongo do Vouga, atravessando uma passagem de nível com guarda numa zona vinícola, onde a linha sobe uma pequena montanha, fazendo a locomotiva, usar quase toda a sua força até ao apeadeiro da aldeia de Aguieira, subindo sempre, até à cota mais elevada, a 72 metros, na estação da vila de Mourisca do Vouga, onde existem duas vias!. (That the locomotive does not disappoint, because it launched the train in a great part of the route at 40 or 50 km / h, but in the first few minutes of progress, did not give much speed to the train, because the whole system is with high temperature, had just passed through the area where there is the most rugged part of the route, because after the viaduct over the Marnel stream, some fields of corn and flax, until finding the stop of Valongo do Vouga, crossing a passage of level with a guard in a wine-growing area, where the line climbs a small mountain, making the locomotive, use almost all its force until the halt of the village of Aguieira, always rising, to the highest elevation, 72 meters, in the village station of Mourisca do Vouga, where there are two ways)!.

…nós, ainda crianças, olhando a nossa avó de lado, com receio de algum reparo, levantámo-nos do banco de madeira envernizada, descendo a enorme correia de cabedal, que segura a janela da carruagem!. O ar fresco, com algum cheiro do fumo de carvão queimado, onde o trajecto é a descer, passámos a passagem de nível da aldeia de Alagôa, um pouco mais abaixo, surge a nossa aldeia do Vale do Ninho D’Águia, onde nascemos, onde o combóio segue com alguma velocidade, apitando, como sempre, saudando os vizinhos e acordando as ovelhas no curral da nossa velha casa, transportando as suas mais de 100 toneladas, dando uma curva um pouco apertada, antes de chegar à estação de Águeda!. (We, still children, looking at our grandmother aside, for fear of some repair, we rose from the varnished wooden bench, down the huge leather strap that holds the carriage window! The fresh air, with some smell of burnt charcoal smoke, where the route is going down, we passed the level crossing of the village of Alagôa, a little further down, our village comes from the Valley of the Nest of Eagle, where we were born, where the train continues with some speed, whistling, as always, greeting the neighbors and waking up the sheep in the corral of our old house, transporting its more than 100 tons, giving a rather tight curve, before arriving at Águeda station)!.

…que é uma estação intermédia com uma certa relevância, pois tem três linhas, duas delas com agulhas talonáveis, entrando na mais à direita fazendo algum barulho ao travar, junto ao depósito, para encher o reservatório de água, ajustando-se debaixo do enorme cano, que vem do depósito!. O maquinista, saindo do seu posto de comando, é que faz toda esta operação, vendo o reservatório cheio, volta de novo ao seu posto de comando!. (Which is an intermediate station with a certain relevance, because it has three lines, two of them with talonable needles, entering the right most making some noise when locking, next to the tank, to fill the reservoir of water, adjusting underneath of the huge pipe that comes from the tank!. The engineer, leaving his command post, is doing all this operation, seeing the reservoir full, back to his command post)!.

…por aqui, vê-se muita gente, as mulheres trajam, chinelas nos pés, saias pretas de pano cardado de burel, compridas, usando uma cinta de cor vermelha bem apertada, blusa branca com bordados, por baixo de um colete verde escuro, bem justo ao corpo, apertado com botões reluzentes de prata e, na cabeça um chapéu largo, de cor preta, com algumas penas de pavão servindo de enfeite!. Os homens trajam normalmente, salientando as calças de pano cardado, também de burel castanho e nos pés, onde alguns usam tamancos ou botas de cabedal com a cor natural e, na cabeça, um chapéu com duas bolas caídas atrás, seguras por uma fita de pano!. (Here you can see a lot of people, women dress, flip-flops, black skirts of carded burel cloth, long, wearing a tight red strap, white blouse with embroidery, under a green waistcoat dark, very tight to the body, tight with shiny silver buttons, and on the head a wide, black hat with some peacock feathers serving as an ornament!. Men usually dress, emphasizing carded cloth trousers, also with brown burs and feet, where some wear natural colored leather clogs or boots and, on the head, a hat with two balls fallen behind, secured by a ribbon of cloth)!.

…fez uma paragem não superior a 10 minutos, talvez por causa de encher o tanque com água!. O chefe da estação, fardado rigorosamente, com um boné branco, ao lado de dois “carregadores”, também fardados, cigarro ao canto da boca, junto de um carro de duas rodas, com um casaco de cutim azul, também com um boné já um pouco coçado na cabeça, dá autorização de partida ao combóio, que tinha saído da estação de Sernada do Vouga, pela manhã!. (Made a stop not exceeding 10 minutes, maybe because of filling the tank with water!. The head of the station, strictly uniformed, wearing a white cap, alongside two “porters”, also in uniform, a cigarette at the corner of his mouth, next to a two-wheeled car in a blue cuffed jacket, a little scratched in the head, gives permission to start the train, which had left the station of Sernada do Vouga in the morning)!.

…pouco tempo depois, surgem os apeadeiros das aldeias de Oronhe, Casal de Álvaro e Cabanões, onde apenas uma placa indicam o seu nome, só parando se houver pessoas ou mercadoria para embarcar!. A área começa a ser plana, seguimos quase junto ao rio Águeda, em muitos locais mesmo ao seu lado, até surgir o apeadeiro da aldeia de Travassô!. (Shortly after, there are the stops of the villages of Oronhe, Casal de Álvaro and Cabanões, where only one sign indicates his name, only stopping if there are people or merchandise to embark!. The area begins to be flat, we follow almost next to the river Águeda, in many places even to its side, until appearing the halt of the village of Travassô)!.

…o combóio, segue nos seus 40 km/h, mas cremos que às vezes aumenta a velocidade, vai resistindo a algumas curvas mais apertadas, no interior do combóio, com os seus bancos de madeira quase todos ocupados, algumas sacas pelo chão, crianças gritando ao sabor do vento, que entra pelas janelas!. Vamos numa carruagem de terceira, mas alguns dizem que é de segunda, após uma dessas curvas, surge uma ponte metálica, que transpõe o rio Águeda, afluente do Vouga, que passa a poucos metros dali!. Olhando para a esquerda, vemos a planície de campos, alguns alagadiços, para a direita uma montanha de pedra vermelha, tudo antes de entrar num túnel, que é talhado num impressionante esporão da falésia vermelha!. (The train, it continues at its 40 km / h, but we believe that sometimes it increases the speed, it resists to some more tight corners, inside the convoy, with its banks of wood almost all occupied, some bags by the ground, children shouting in the wind, coming in through the windows!. We go in a third carriage, but some say it’s second, after one of these curves, a metallic bridge emerges, which transposes the river Águeda, a tributary of the Vouga, which passes only a few meters away! Looking to the left, we see the plain of fields, some swamps, to the right a mountain of red stone, all before entering a tunnel, which is carved into an impressive spur of the red cliff)!.

…estamos na estação de Eirol, tem duas vias para cruzamento, também com agulhas talonáveis, entramos na da direita, enquanto esperáva-mos pelo combóio que vinha de Aveiro, que se havia de cruzar com “o nosso combóio” nesta estação!. O maquinista aproveita para verificar o estado da locomotiva, nomeadamente a lubrificação do sistema que faz andar as rodas!. (We are at the station of Eirol, there are two ways to cross, also with talonable needles, we entered the one on the right, while we waited for the train that came from Aveiro, that was to be crossed with “our train” in this station! . The driver is able to check the state of the locomotive, namely the lubrication of the system that drives the wheels)!.

…seguimos!. A estrada nacional de Águeda para Aveiro, acompanha-nos do lado direito, um pouco à frente, surge-nos o apeadeiro de São João de Loure e, a linha continua a ladear a estrada nacional pela esquerda!. O estuário do rio Vouga, pode-se admirar, se olhar-mos para o lado direito, existe muita água, em alguns lugares cobre o campo, outra passagem de nível, onde uma guarda faz sinal, que o combóio podia seguir, onde pouco depois entrámos na estação da povoação rural de Eixo, com duas linhas de agulhas talonáveis!. (We follow!. The national road from Águeda to Aveiro, accompanies us on the right side, a little ahead, we see the stop of St. John of Loure and, the line continues to flank the national road on the left!. The estuary of the river Vouga, one can admire if we look to the right side, there is much water, in some places covers the field, another level crossing, where a guard signals, that the train could follow, where little then we entered the station of the rural village of Eixo, with two lines of countable needles)!.

…num espaço de pouco tempo, surge o apeadeiro de Azurva, com a plataforma à esquerda e, contendo apenas uma placa com o seu nome, mais à frente, após curvas e contra-curvas, aparece o apeadeiro de Esgueira, mais uma passagem de nível na estrada nacional Águeda – Aveiro, e finalmente, depois duma recta extensa, a locomotiva CP E96 ou 97, trazendo atrás de si o “nosso combóio” termina todo o seu percurso!. (In a short space of time, there is the Azurva stop, with the platform to the left and, containing only one plaque with its name, further ahead, after curves and counter-curves, appears the stop of Esgueira, plus one level crossing on the Águeda – Aveiro national road, and finally, after an extended straight, the CP E96 or 97 locomotive, bringing the “our train” behind us and finishing the whole route)!.

…depois, depois saímos pela mão da nossa avó Agar, ajudando a carregar os sacos com lenha, carqueija, alguns utensílios de cozinha, roupa, carne salgada de porco, farinha, entre outras coisas, atravessámos a área leste da estação de Aveiro, incluindo, a passagem da linha larga do norte, entrando no edifício principal da estação, para sair para a cidade, também pela porta principal, enquanto a locomotiva a vapor, possívelmente foi desengatada e dirigida para o depósito das locomotivas, onde iam limpar a fornalha e atestar o depósito de carvão!. (Then we went out by the hand of our grandmother Agar, helping to carry the bags with firewood, carqueija, some kitchen utensils, clothes, salted pork, flour, among other things, we crossed the area east of the station of Aveiro, including the passage of the wide northern line, entering the main building of the station, to leave for the city, also through the main door, while the steam locomotive, possibly was disengaged and directed to the warehouse of the locomotives, where they were to clean the furnace and attestation of the coal deposit)!.

…entrámos na camionete, de cores amarela e verde, com assentos de cabedal que, depois do homem dos bilhetes, subindo por umas acrobáticas escadas, ter arrumado todos os sacos da nossa bagagem na parte superior do bonito veículo, seguimos em direcção às praias do oceno Atlântico, passando ao lado das salinas, cuja extração manual do sal era executada pelos “marnotos” (trabalhadores das salinas), transportando à cabeça largas canastras cheias de sal, que estratégicamente vão construindo pequenas montanhas brancas ao lado da rudimentar estrada!. (We got into the van, in yellow and green, with leather seats, which, after the ticket man, climbing up an acrobatic staircase, having packed all the bags of our luggage in the upper part of the beautiful vehicle, beaches of the Atlantic Ocean, passing by the salinas, whose manual extraction of salt was carried out by the “marnotos” (workers of the salinas), carrying to the head wide baskets full of salt, that strategically they are building small white mountains next to the rudimentary road)!.

…continuando, travessámos algumas pontes de madeira sobre a maravilhosa Ria de Aveiro, chegando ao fim do nosso destino, que era uma zona com algumas palmeiras, junto à Ria de Aveiro, que chamavam a paragem das camionetas da Costa Nova!. (And then we crossed some wooden bridges over the beautiful Ria de Aveiro, arriving at the end of our destination, which was an area with some palm trees, near the Ria de Aveiro, which was called the Costa Nova bus stop)!.

…acordámos e, vamos caminhar na chuva miudinha, para voltar à realidade da presente vida!. (We wake up and, let’s walk in the small rain, to return to the reality of the present life)!.

Tony Borie, June 2018.

…a destroyed village!

…a destroyed village!


…uma aldeia destruída! (a destroyed village)!.

…o nosso miserável diário diz-nos que, era uma quinta-feira, o mês era Abril, que devia de ser do ano de 1965!. Os rascunhos lá escritos são um resumo contado pelo “Trinta e Seis”, soldado telegrafista, baixo e gordo na estatura, (já por diversas vezes aqui mencionámos o seu nome), que naquele momento carregava uma aparelhgem de comunicação às costas, com pilhas novas, portanto trabalhando perfeitamente!. (Our miserable diary tells us that it was a Thursday, the month was April, which must have been from the year 1965! The sketches written there are summarized by “Thirty-Six”, a telegrapher soldier, short and fat in stature (he has already mentioned his name several times), who at that time carried a communication device on his back with new batteries, therefore working perfectly)!.

…a seu lado, ia o seu companheiro e amigo, soldado de combate, “Curvas, alto e refilão”, (de quem também já falámos aqui por diversas vezes), ambos levavam a espingarda metralhadora G-3, que normalmente era transportada debaixo do braço direito, com o cano sempre em direcção ao chão!. No cinto iam carregadores extra, onde também iam duas granadas ofensivas, que lhes tinham sido distribuídas pela manhã, ainda no aquartelamento!. O “Curvas, alto e refilão”, levava três granadas, duas distribuídas pela manhã, e uma outra, que ele nunca entregou, de anteriores patrulhas e operações de combate ao inimigo, dizendo a quem o quizesse ouvir, que aquela granada ela dele!. Portanto no seu pensamento, aquela granada era sua propriedade, não do Exército Português!. (At his side, his companion and friend, a combat soldier, “Curvas, alto e refilão”, (high and complicative, whom we have talked about several times before), both carried the G-3 machine gun, which was usually carried under the right arm, with the barrel always towards the ground!. In the belt were extra loaders, where there were also two grenades offensive, which had been distributed to them in the morning, still in the barracks!. The “Curvas, alto e refilão”, (high and complicative), carried three grenades, two distributed in the morning, and another, which he never delivered, from previous patrols and combat operations to the enemy, telling anyone who wanted to hear it, that grenade was his!. So in his thinking, that grenade was his property, not the Portuguese Army)!.

…as granadas, eram distribuídas antes de qualquer patrulha ou operação de combate ao inimigo, sendo entregues de volta, caso não houvesse necessidade de ser usadas!. Quando se procedia à distribuição das granadas, alguém já estava à espera que a caixa em madeira onde normalmente se guardavam ficasse vazia, para construir uma gaiola para o seu piriquito, um banco, ou qualquer outro utensílio de uso diário, portanto, quando havia retorno de granadas, iam para um local qualquer da arrecadação, muitas vezes única e simplesmente para o chão!. (The grenades, were distributed before any patrol or combat operation to the enemy, being delivered back if there was no need to be used!. When the grenades were being distributed, someone was already waiting for the wooden box where they were normally stored to be empty, to build a cage for their parakeet, a bench, or any other utensil of daily use, so when there was a return of grenades, would go to some place of the collection, often single and simply to the ground)!.

…tinham saído do aquartelamento manhã cedo, ao começo da luz do dia, em viaturas auto, que os deixou ao norte, quase a duas horas do quartelamento!. Seguiam a pé, numa operação de patrulha, de rotina, inspecionavam a zona por onde passavam, principalmente se havia vestígios de bases inimigas!. Era um grupo de combate do Pelotão de Morteiros acompanhado por outro grupo de acção, de uma Companhia de Artilharia!. Na frente, iam uns tantos soldados africanos, que faziam parte das Forças Armadas Portuguesas, que normalmente eram utilizados como guias e tradutores, quando havia contacto com as populações!. (Had left the barracks early morning, at the beginning of daylight, in auto vehicles, which left them to the north, almost two hours from the barracks! They followed on foot, in a routine patrol operation, inspecting the area where they passed, especially if there were traces of enemy bases! It was a combat group of the Mortal Squadron accompanied by another action group, an Artillery Company!. At the front were a few African soldiers, who were part of the Portuguese Armed Forces, which were usually used as guides and translators when there was contact with the people)!.

…iam com o camuflado todo molhado, colado ao corpo!. Da cintura para baixo, iam molhados por atravessarem “bolanhas” (pântanos), onde as áreas com “tarrafo”, (vegetação rasteira à saída dos pântanos, onde na maré baixa aparecia a lama, com algumas partes secas e duras, que cortavam como facas), lhes rompiam a carne e, na parte superior do corpo, o suor, daquele clima quente, húmido e abafado!. (Went with the camouflaged all wet, glued to the body!. From the waist down, they were wet because they crossed “bolanhas” (marshes), where the areas with “tarrafo”, (low vegetation at the exit of the marshes, where in the low tide appeared the mud, with some dry and hard parts, that cut like knives), broke their flesh, and on the upper part of their bodies the sweat, the hot, humid and stuffy weather)!.

…o recipiente onde guardavam a água, a que chamavam “cantil”, era tão importante como a espingarda metralhadora G-3!. Bebiam, bebiam e, sempre que era possível enchiam de novo o “cantil”, nas “bolanhas” (pântanos), ao de cima, com gentileza, para só entrar a água mais limpa, sem mosquitos ou outras espécies!. Traziam uma embalagem de ração de combate, mas alguns preferiam um bocado de pão, que era rijo, antes de entrarem nas “bolanhas” (pântanos)!. (The vessel where they kept the water, which they called “cantil”, was as important as the G-3 machine gun! They drank, they drank, and whenever possible they filled the “cantil” again, in the “bolanhas” (marshes), to the top, gently, only to enter the water cleaner, without mosquitoes or other species!. They had a pack of fighting rations, but some preferred a piece of bread, which was rough, before entering the “bolanhas”)!.

…este grupo de militares, era comandado por um alferes miliciano!. Era um jovem que interrompeu a escola superior que frequentava em Portugal, para ir para uma frente de guerra!. Pertencia ao nosso grupo de pessoas que bebiam álcool e fumavam cigarros feitos à mão, para entre outras coisas, esquecer que estavam naquele maldito cenário de combate!. Tinha estudos superiores, sabia que ao abandonar a universidade e, atravessando o oceano para um diferente continente, lhe tinha saído na lotaria da vida, um bilhete premiado que, ameaçava de morte a sua jovem vida!. (This group of military men was commanded by a military lieutenant!. It was a young man who interrupted his high school in Portugal to go to a war front! It belonged to our group of people who drank alcohol and smoked handmade cigarettes, among other things, forget that they were in that damn battle scene!. He had had higher studies, he knew that when he left university and, crossing the ocean to a different continent, he had left him in the lottery of life, an award-winning ticket that threatened to kill his young life)!.

…ele sabia que, o seu país o tinha convocado, o tinha feito abandonar a universidade para lhe dizer que, o sentimento de unidade, de patriotismo, ou até de orgulho que muitas vezes é exigido, para defender o seu país contra um imaginável opressor, que o atacava, ali ao dobrar da esquina!. Todavia, não era ali ao dobrar da esquina, não era um imaginável opressor, era a muitos quilómetros de distância, para lá do oceano, onde havia emoções de medo, onde existia um local de sofrimento, onde o inimigo procurava a liberdade do seu país, para onde os jovens portugueses iam lutar e morrer!. (He knew that his country had summoned him, had made him leave the university to tell him that the sense of unity, patriotism, or even pride that is often required, to defend his country against a imaginable oppressor, who attacked him, just around the corner! But it was not just around the corner, it was not an imaginable oppressor, it was many miles away, beyond the ocean, where there were emotions of fear, where there was a place of suffering where the enemy sought the freedom of his country, where the Portuguese youth were going to fight and die)!.

…ele sabia que, a existência da Segunda Guerra Mundial, foi fácil de entender, Hitler queria conquistar o mundo, tínhamos que detê-lo, mas não era tão fácil entender, como a Guerra Colonial Portuguesa, podia ser comparável!. Era difícil entender como aquele pequeno espaço, lá na África, representava uma ameaça à liberdade portuguesa, lá tão longe, afastado, separado pelo oceano, exigindo o recrutamento e a vida de milhares ou talvez milhões de jovens, num conflito que se prolongou por anos!. (He knew that the existence of World War II was easy to understand, Hitler wanted to conquer the world, we had to stop him, but it was not as easy to understand, as the Portuguese Colonial War, could be comparable!. It was difficult to understand how that small space in Africa posed a threat to Portuguese freedom, so far, far away, separated by the ocean, requiring the recruitment and life of thousands or perhaps millions of young people, in a conflict that lasted for years)!.

…voltando ao nosso miserável diário, o alferes miliciano dizia constantemente ao “Trinta e Seis”, para ir sempre próximo dele, pois em qualquer momento podia precisar do telefone!. O “Trinta e Seis”, não acatava a ordem, pois era amigo do “Curvas, alto e refilão”, andavam sempre lado a lado, protegiam-se!. Saíram de uma “bolanha”, (pântano), iam em terreno seco com alguma vegetação, a antena do rádio era alta, tocava em tudo, furioso, o “Trinta e Seis”, dizia ao “Curvas, alto e refilão”:

– caralho, estamos fodidos!. Porque é que o alferes miliciano traz para aqui o pessoal?. Para um local destes, com tanto arvoredo, tão difícil de avançar no terreno!. Se fosse da parte da tarde, dizia que andava bêbado!.

…claro, o alferes miliciano, tinha fama de andar constantemente sobre influência, lá no aquartelamento, sendo no entanto uma excelente pessoa!.

(Returning to our miserable diary, the military lieutenant constantly said to “Thirty-Six”, to always go near him, because at any moment he could need the telephone!. The “Thirty-Six”, did not comply with the order, because he was a friend of “Curvas, alto and refilão”, (high and complicative), they always walked side by side, protected themselves! They left a “bolanha” (swamp), went on dry ground with some vegetation, the antenna of the radio was high, it touched in everything, furious, “Thirty Six”, it said to “Curvas, alto and refilão”:

– Fuck, we’re fucked !. Why does the military lieutenant bring people here? To such a place, with so much grove, so difficult to advance on the ground!. If it was afternoon, he’d say he was drunk!

Of course, the military lieutenant, had a reputation for constantly walking over influence, there in the barracks, being an excellent person)!.

…surge uma aldeia, umas tantas casas, circundadas por uma vedação com estacas e ramos de árvores!. Os soldados africanos, entram na aldeia falando alto, numa linguagem que não se entende!. O “Curvas, alto e refilão”, numa linguagem reles, diz para o “Trinta e Seis”:

– o que é que estes cabrões estão a falar?. Estão a dar as boas-vindas, ou a avisar a população para fugir, pois os soldados estão próximos!.

…era uma incógnita, à qual ninguém sabia responder!.

(There is a village, a few houses, surrounded by a fence with stakes and branches of trees! The African soldiers, enter the village speaking loudly, in a language that is not understood!. The “Curvas, alto and refilão”, (high and complicative), in a fair language, says to the “Thirty Six”:

– What the fuck are you talking about?. They are welcoming, or warning the population to flee, because the soldiers are close!.

Was an unknown, to which no one knew how to answer)!.

…na aldeia, naquele momento havia sómente uma mulher, magra, já de uma certa idade, nua da cinta para cima, com algumas argolas em volta do pescoço, talvez servindo de enfeite!. Estava sentada, ao lado de um cesto de arroz com casca, as suas mãos ao lado da cara, falando aflita, uma linguagem incompreensível!. De vez em quando tirava as mãos da cara, fazendo gestos para a frente e para trás, quando surgiram duas crianças, também magras e nuas!. Estas três pessoas, eram no momento os habitantes da aldeia!. (In the village, at that moment there was only one woman, thin, already of a certain age, naked from the strap up, with some rings around her neck, perhaps serving as an ornament!. She was sitting next to a basket of barley rice, her hands beside her face, speaking distressed, an incomprehensible language! From time to time he would take his hands from his face, gesturing back and forth, when two children appeared, also thin and naked! These three people were at the moment the inhabitants of the village)!.

…os soldados africanos, chamados pelo alferes miliciano para traduzir as suas palavras, disseram:

– ela se lastima, porque os soldados lhe mataram os seus dois filhos!. Diz para se irem embora, que aqui não está mais ninguém!. Ainda tem quatro filhas, que desapareceram certo dia pela madrugada e que a visitam de vez em quando, pois neste momento são guerrilheiras, transportadoras de material de guerra, lá na fronteira!.

(The African soldiers, called by the military lieutenant to translate their words, said:

– She hurts herself, because the soldiers killed her two children!. Tell them to leave, that there is no one else here! She still has four daughters, who disappeared one day at dawn and who visit her from time to time, because at the moment they are guerrilla war carriers, there on the border)!.

…o “Curvas, alto e refilão”, diz para o “Trinta e Seis”:

– se esta puta não se cala, meto-lhe já dois tiros nos cornos!.

…o alferes miliciano, repreende o “Curvas, alto e refilão”, que no entanto continua a refilar, argumentando:

– é uma mentirosa, filha da puta!. As filhas vêm aqui, isto é uma base dos guerrilheiros!.

…só o “Trinta e Seis” é que o acalma e manda calar!.

(The “Curvas, alto and refilão”, (high and complicative), says to the “Thirty Six”:

– If this bitch does not shut up, I’ll give her two shots already!.

The military lieutnant, rebukes the “Curvas, alto e refilão”, which nevertheless continues to reframe, arguing:

– You’re a liar, motherfucker!”. Daughters come here, this is a guerrilla base!.

Only the “Thirty-Six” is what calms you down and tells you to shut up)!.

…o alferes miliciano, entra em contacto com o comando explicando a situação daquela aldeia quase abandonada!. Recebe ordem para capturar a mulher e as crianças, investigar todas as casas da aldeia na procura de tudo que fosse suspeito, em seguida queimar e destruir a aldeia!. Começa aqui o saque à aldeia!. Os militares encontraram algumas armas, munições e documentos, os soldados africanos trouxeram panelas, tachos, roupas, dinheiro, bicicletas, enfim, tudo o que entendessem que lhes era útil!. (The military lieutnante, comes in contact with the command explaining the situation of that almost abandoned village!. Receive order to capture the woman and the children, investigate all the houses of the village in search of everything that was suspect, then burn and destroy the village!. Here begins the looting of the village! The soldiers found some weapons, ammunition and documents, the African soldiers brought pots, pots, clothes, money, bicycles, in short, anything they thought was useful)!.

…depois, foi deitar fogo a tudo e, no espaço de uma a duas horas, com fogo controlado, deixou de haver aldeia!. Eram oito casas, durante o fogo ouviram-se alguns rebentamentos, sinal de que havia material explosivo, talvez enterrado!. Os prisioneiros, vieram para o hospital da capital Bissau!. O “Curvas, alto e refilão”, começou o fogo, gritando em plenos pulmões:

– filhos da puta!.

…o alferes miliciano repreendeu-o!. Todavia, não produzia qualquer efeito, o “Curvas, alto e refilão”, não acatava ordens, queria mandar, devia de ser general!.

(Later, he set fire to everything and, in an hour or two, with controlled fire, there was no village left !. There were eight houses, during the fire some explosions were heard, a sign that there was explosive material, perhaps buried! The prisoners, they came to the hospital of the capital Bissau!. The “Curvas, alto e refilão” (high and complicative), began the fire, shouting in full lungs:

– You son of a bitch!

The military lieutenant rebuked him!. However, it did not produce any effect, the “Curvas, alto and refilão”, (high and complicative) did not accept orders, wanted to rule, it must be general)!.

Tony Borie, June 2018.

…South Pass, Wyoming!

…South Pass, Wyoming!

 

…Passagem Sul!. (South Pass, Wyoming)!.

…viajávamos para oeste, na estrada rápida número 80, no estado do Nebraska!. Aqui e ali iam surgindo letreiros de estrada, informando que próximo passava a Trilha de Oregon, a Trilha Mormon ou a Trilha da Califórnia, que era por onde também viajavam os cavaleiros do histórico Pony Express!. (We were traveling west on the 80th freeway in the state of Nebraska!. Here and there came road signs, informing that the Oregon Trail, the Mormon Trail, or the California Trail, which was where the knights of the historic Pony Express were also traveling)!.

…entrámos no estado de Wyoming, sendo os letreiros ainda mais frequentes e, como adoramos caminhar, observar a natureza, ver locais históricos relacionados com as viajens dos nossos antepassados emigrantes, a nossa curiosidade aumentou quando verificámos que, o célebre “South Pass”, (Passagem Sul), era próximo!. Deixando a estrada rápida número 80, seguimos para norte na estrada US 287, onde algum tempo depois, nos surge a estrada estadual de Wyoming número 28, que segue para oeste, também conhecida como “South Pass Highway”, (estrada da Passagem Sul)!. (We entered the state of Wyoming, with signs being even more frequent, and as we love to walk, observe nature, see historical sites related to the journeys of our emmigrant ancestors, our curiosity increased when we noticed that the celebrated “South Pass “, (South Pass), was close!. Leaving Highway 80, we head north on US Highway 287, where some time later, we come to the Wyoming State Highway 28, heading west, also known as the “South Pass Highway”)!.

…seguindo por esta estrada, o cenário é deslumbrante!. Parando aqui e ali, podemos observar a sombra das nuvens brancas, ocultando o cume das montanhas ao longe, algumas ainda com neve!. Desligando o motor do veículo, apreciámos o silêncio, caminhámos, ouvimos a brisa, respirámos o aroma que vem da vegetação rasteira, cheirámos a terra branca das marcas profundas do trilho das rodas, que as caravanas puxadas por animais, fizeram ao longo dos anos, descendo a encosta da montanha, rumo ao oeste!. Apreciámos aqueles rebanhos de antílopes que por ali andam, movendo-se e pastando, que naquela época distante, eram a principal fonte de alimentação dos emigrantes que por aqui passavam!. (Following this road, the scenery is stunning!. Stopping here and there, we can observe the shadow of the white clouds, hiding the mountain summit in the distance, some still with snow!. Turning off the engine of the vehicle, we enjoyed the silence, we walked, we heard the breeze, we breathed the scent that came from the undergrowth, we smelled the white soil of the deep marks of the wheel tracks, that caravans pulled by animals, down the mountainside, heading west!. We appreciated those herds of antelopes that walk around, moving and grazing, that in that distant time, were the main source of food of the emigrants that passed here)!.

…fechámos os olhos, imaginámos o vento a uivar, ouvimos o som do casco dos cavalos dos mensageiros do Pony Express, que levavam uma carta de St. Joseph, Missouri, via “South Pass” (Passagem Sul), para Sacramento, Califórnia, em apenas duas semanas, o gemido das rodas das caravanas, o som do chicote dos condutores, as vozes das mulheres e crianças, vimos os caçadores de peles, os pioneiros, os missionários ou emigrantes com destino a Oregon, ávidos pelo ouro da Califórnia ou os récem convertidos Mormons, récem chegados da Escandinávia!. Imaginámos os mais de um milhão de emigrantes em busca de residência no oeste, iniciando uma caminhada, que se prolongava por anos, saindo de St. Louis, no estado de Missouri, com dois filhos, chegando ao estado da Califórnia com cinco!. (We closed the eyes, we imagined the wind howling, we heard the sound of the hoof of the horses of the couriers of the Pony Express, who carried a letter from St. Joseph, Missouri, via the South Pass to Sacramento, California, in just two weeks, the moan of the caravan wheels, the sound of the whip of the drivers, the voices of the women and children, we saw the hunters pioneers, missionaries or emigrants to Oregon, eager for gold from California, or the newly converted Mormons, are coming back from Scandinavia! We imagined the more than one million emigrants seeking residency in the west, starting a long-standing trek out of St. Louis, Missouri, with two children, arriving in the state of California with five)!.

…O “South Pass”, (Passagem Sul), é o nome que se dá para as duas passagens de montanha no Continental Divide, nas Montanhas Rochosas, no sudoeste do estado de Wyoming, cujas passagens estão localizadas numa região baixa e larga entre diversas cordilheiras!. É o ponto mais baixo da divisão continental entre as Montanhas Rochosas Central e do Sul, fornecendo um ponto de passagem natural, ampla e aberta!. É uma passagem histórica e um marco histórico nacional, tornando-se o caminho para os emigrantes nas Trilhas do Oregon, Califórnia e Mormon, para o ocidente, durante o século XIX!. (The South Pass is the name given to the two mountain passes in the Continental Divide in the Rocky Mountains in southwestern Wyoming whose passages are located in a low, wide region among several mountain ranges!. It is the lowest point of the continental divide between the Central and South Rockies, providing a natural, wide and open waypoint!. It is a historic passage and a national landmark, making it the path for emigrants on the Oregon, California and Mormon Trails to the west during the nineteenth century)!.

…entre “Marias Pass” (Passagem Maria), perto da fronteira do Canadá e “Guadalupe Pass” (Passagem Guadalupe), não muito longe do México, “South Pass”, (Passagem do Sul), era a única maneira fácil de atravessar a enorme cordilheira das Montanhas Rochosas!. É para nós, um lugar especial, onde podemos agora, viver os anos do século XIX, quando um grupo de comerciantes de peles por aqui passou, passando a ser uma rota regular de emigrantes e pesquizadores de ouro, representando hoje um tesouro nacional, que devemos mostrar às gerações futuras!. (Between “Marias Pass”, near the border of Canada and “Guadalupe Pass”, not far from Mexico, “South Pass”, was the only easy way to cross the huge mountain range of the Rocky Mountains!. For us, it is a special place, where we can now live the nineteenth century, when a group of fur traders here passed, becoming a regular route of emigrants and gold fishers, representing today a national treasure, which we must show to future generations)!.

 

 

…por volta do ano de 1832, um tal capitão Benjamin Bonneville, com uma caravana de 110 homens e 20 carroças, foram o primeiro grupo a levar vagões de caravana pelo “South Pass” (Passagem Sul) e, no ano de 1836, Narcisa Whitman e Eliza Spalding foram as primeiras mulheres brancas pioneiras a atravessar esta passagem!. A descoberta desta rota terrestre, através do Continental Divide, que é a divisão hidrológica principal e, em grande parte, montanhosa da América, que se estende desde o Estreito de Bering até ao Estreito de Magalhães, separando as bacias hidrográficas que drenam para o Oceano Pacífico, dos sistemas fluviais que drenam para o Oceano Atlântico, tem um grau relativamente fácil, sendo considerada uma dádiva, para aqueles que esperavam ver os Estados Unidos da América se estendendo do oceano Atlântico ao Pacífico!. (Around the year 1832, a certain captain Benjamin Bonneville, with a caravan of 110 men and 20 carts, was the first group to carry caravans through the South Pass, and in the year 1836, Narcisa Whitman and Eliza Spalding were the first pioneering white women to cross this passage! The discovery of this land route through the Continental Divide, which is the major and largely mountainous hydrological division of America, stretching from the Bering Strait to the Strait of Magellan, separating the watersheds that drain into the Ocean Pacific Ocean, from the river systems draining into the Atlantic Ocean, has a relatively easy degree, being considered a gift, to those who expected to see the United States of America stretching from the Atlantic to the Pacific)!.

…este local remoto, não é um espectáculo grandioso como por exemplo, o Yellowstone Nacional Parque ou o Grand Canyon Nacional Parque, todavia tem uma beleza tranquila e assombrosa, que escapou à devastação do progresso!. Claro, também foi procurado pelos pesquizadores de ouro, mas diziam que em “South Pass” (Passagem Sul), era muito difícil ficar rico, sendo até um lugar terrível para se ficar rico rápidamente, talvez só os negociantes do comércio de peles, que compravam a mercadoria aos que caçavam os lindos e inocentes animais, por um centavo de dólar, vendendo o produto por fortunas nas cidades de St. Louis, San Francisco ou Nova Iorque!. (This remote location is not a grand spectacle such as the Yellowstone National Park or the Grand Canyon National Park, yet it has a quiet and haunting beauty that has escaped the devastation of progress!. Of course, it was also sought by the gold researchers, but they said that in the South Pass, it was very difficult to get rich, even being a terrible place to get rich quick, maybe only fur traders, who bought the merchandise of those who hunted the beautiful and innocent animals for a cent, and sold the product for fortunes in the cities of St. Louis, San Francisco, or New York)!.

Tony Borie, June 2018.

…reading the war diary!

…reading the war diary!


…lendo o diário de guerra! (reading the war diary)!.

…hoje vamos contar uma história pitoresca passada em cenário de guerra!. Vamos esquecer mecanismos para governar uma guerra, tratados para proteger os direitos humanos, impedir o genocídio, restringir as armas mais perigosas, pois tudo isso só existe no papel, guerra é guerra, quando existe é para vencer ou perder, quase vale tudo, esses esforços, quase nunca são bem sucedidos, as guerras são terríveis, são travadas e atrocidades são cometidas, essa é a verdade!. (Today we will tell a past picturesque story in a scenario of war!. Let us forget mechanisms to govern a war, treats to protect human rights, prevent genocide, restrict the most dangerous weapons, because all this only exists on paper, war is war, when there is to win or lose, almost anything, these efforts are almost never successful, wars are terrible, they are fought and atrocities are committed, that is the truth)!.

…abrimos o nosso diário de guerra, lá vêm duas páginas, onde com alguma dificuldade se pode ler que no dia 4 de Novembro, que devia de ser do ano de 1964, fomos jantar a casa do Primeiro Sargento de uma Companhia de Engenharia, que estava estacionada na vila de Mansoa durante a construção do novo aquartelamento e, que vivia numa casa do Libanês, com sua esposa, sendo o responsável por tudo o que dizia respeito a uso de cimento, nas obras do novo aquartelamento, usando um camião de três rodados, que transportava o cimento desde o cais do rio Gêba, na cidade de Bissau!. Alguns militares, diziam que o referido camião não era lá muito seguro, pois “deixava cair” alguns sacos de cimento antes de chegar à vila de Mansoa, chegando quase sempre, pouco mais que meio!. (We open our war diary, there come two pages, where with some difficulty one can read that on November 4, which should have been from the year 1964, we went to dinner at the home of the First Sergeant of an Engineering Company, who was stationed in the village of Mansoa during the construction of the new barracks, and who lived in a Lebanese house with his wife and was responsible for all that was involved in the use of cement in the construction of the new quarters using a truck of three wheeled, that transported the cement from the quay of the river Gêba, in the city of Bissau!. Some soldiers said that the truck was not very safe there, as it “dropped” some sacks of cement before arriving at the village of Mansoa, arriving almost always, little more than half)!.

…o Primeiro Sargento, sempre guardava algum cimento para usar nas fundações das futuras barracas que se iam construindo, roubando terreno aos pântanos que circundavam a área!. Se roubava cimento, era parte do comércio que uniu parte do mundo, onde milhões, dizemos até combóios de dinheiro, são constantemente retirados da classe de pobreza que em algumas partes do globo existem, onde quadrilhas organizadas funcionam, contrariando os ideais de liberdade e igualdade de um estado de direito, que infelizmente continuam a avançar, impossíveis de parar em algumas partes do nosso planeta!. Enfim, é um legado do qual somos herdeiros da fortaleza de gerações passadas!. (The First Sergeant, he always kept some cement to use on the foundations of future tents that were being built, stealing land from the marshes that surrounded the area!. Stealing cement, it was part of the trade that united part of the world, where millions, we even say trains of money are constantly removed from poverty class that in some parts of the globe exist, where organized gangs work, contrary to the ideals of freedom and equality of a state of law, which unfortunately continue to advance, impossible to stop in some parts of our planet!. At last, it is a legacy of which we are heirs of the fortress of past generations)!.

…nós neste momento, somos pessoas com uma idade um pouco avançada, talvez fora do tempo, da actualidade e, o que acabamos de escrever são apenas “off words”, (palavras de fora), não estavam escritas no nosso diário de guerra, portanto vamos continuar a ler o que lá está escrito!. Aquele jantar, foi um grande convívio, havia lá uma gazela, que tinha sido assada no forno do aquartelamento, batatas cozidas com a pele, pão e azeitonas, regadas com muito vinho, não sendo necessário explicar que tudo isto foi roubado no aquartelamento, (da tal parte do comércio que uniu parte do mundo)!. (We at this moment are people of a slightly advanced age, perhaps out of time, of the present day, and what we have just written are just “off words”, were not written in our diary of war, so let’s continue reading what’s written there!. That dinner was a great joie de vivre, there was a gazelle, which had been roasted in the oven of the barracks, potatoes cooked with the skin, bread and olives, washed with plenty of wine, not having to explain that all this was stolen in the barracks, (of that part of the trade that united part of the world)!.

…não explica porque nos convidaram, mas falando no forno do aquartelamento, devia de ter havido a influência do “Arroz com Pão”, que era o companheiro responsável pelas refeições servidas aos militares, e também do “Tótó”, que era o padeiro, também responsável pela distribuição do vinho, tudo nomes de guerra com que foram baptizados, por isto ou por aquilo, por algumas peripécias em que foram protagonistas, mas que eram nossos amigos e, não se realizava nenhuma “patuscada”, em que não nos avisassem!. (Does not explain why they invited us, but speaking in the furnace of the barracks, there must have been the influence of “Rice with Bread,” which was the companion responsible for the meals served to the military, and also of the “Tótó”, which was the baker, also responsible for the distribution of wine, all names of war with which they were baptized, for this or that, for some adventures in which they were protagonists, but that were our friends and, there was no “spree”, in which they warned us)!.

…numa das páginas seguintes, um pouco à frente vem escrito numa linguagem um pouco primitiva que, viémos à capital da então província, a cidade de Bissau, na camionete dos doentes, na companhia do “Furriel Miliciano”, (outro nome de guerra), que andava sempre a fumar um cigarro feito à mão, todavia não estávamos doentes, estávamos única e simplesmente de folga das nossas tarefas militares!. Viémos sem licença, portanto “desenfiados”, como se então se dizia!. Na cidade, visitámos os pontos de referência que normalmente os militares visitavam quando vinham do “mato”, metemo-nos nos “copos”, talvez pensando que não tínhamos solução definitiva para os problemas da guerra, talvez pensando numa nova maneira sobre a noção de uma guerra justa, que não existia nem nunca existirá, ou no imperatiivo de uma paz, que sim, seria justa!. (In one of the following pages, a little later, written in a somewhat primitive language, we came to the capital of the then province, the city of Bissau, in the van of the sick, in the company of the “Furriel Miliciano” (another name for war), who was always smoking a handmade cigarette, yet we were not sick, we were simply and simply absent from our military tasks!. We saw without license, therefore “unmanned”, as if it were said!. In the city, we visited the landmarks that the military usually visited when they came from the bush, got into the “cups”, perhaps thinking that we had no definitive solution to the problems of war, perhaps thinking in a new way about the notion of a just war, that did not exist and never will exist, or in the imperative of a peace, that yes, would be just)!.

…não regressámos à camionete dos doentes, dormimos num local, que segundo o que diz no diário, era “piolhoso”, ao norte da cidade, onde havia uma grande “tabanca”, (aldeia), com muitas “moranças”, (casas), e raparigas africanas, que não falavam “crioulo” (dialecto local), nem usavam sómente um pano em volta da cinta, não tinham “mama firme”, (peito duro e saliente), ou argolas no pescoço e nas pernas servindo de enfeite, nem andavam descalças!. Pelo contrário, usavam roupas de cor berrante, justas ao corpo, principalmente a segurarem a mama, que não era firme, lábios com alguma pintura, um perfume barato cheirando a álcool, com gestos sensuais e provocatórios!. Quando se aproximavam, falavam algumas palavras obscenas num português acrioulado, dizendo:

– és pessoal do Lisboa?. Queres água ou licor do Lisboa?. Olha aqui, “mama firme” (peito duro e saliente)?. Anda cá, dá “patacão, (dinheiro)!.

(We did not return to the van of the sick, we slept in a place, which according to what it says in the diary, was “lousy”, to the north of the city, where there was a big “tabanca” (village) with many “morances” (houses), and African girls, who did not speak “Creole” (local dialect), nor did they use only a cloth around the strap, had no “firm breast” (hard and salient chest), or rings on the neck and legs they did not even walk barefoot! On the contrary, they wore gaudy garments, tight to the body, especially to hold the breast, which was not “firm”, lips with some paint, an inexpensive scent smelling of alcohol, with sensual and provocative gestures! When they approached, they spoke some obscene words in an acriled Portuguese, saying:

– Are you personal to Lisboa?. Do you want water or liqueur from Lisbon?. Look here, “firm breast” (hard and salient chest)?. Come on, give me “patacão”, (money)!.

…no diário continua escrito que, ao outro dia acordámos não sabíamos onde, mas sem perdermos a calma, com uma certa compostura, retirámos algumas garrafas já vazias de bebida ao nosso redor, sem nenhum “patacão” (dinheiro) nos bolsos, não sabendo se fomos roubados ou se simplesmente gastámos tudo, sentindo algum orgulho no que fizémos, com o braço no ombro um do outro, pois mal nos contínhamos em pé, apresentámo-nos no aeroporto militar de Bissalanca, pregando uma grande mentira, dizendo que tínhamos sido agredidos e roubados, no entanto estávamos bem, mas tínhamos que regressar já ao aquartelamento de Mansoa!. (In the diary it continues written that the next day we woke up we did not know where, but without losing our calm, with a certain composure, we took some already empty bottles of drink around us, without any “patacão” (money) in our pockets, not knowing if we were stolen or if we simply spent everything, feeling some pride in what we did, with the arm in the shoulder of each other, since we were still standing, we introduced ourselves in the military airport of Bissalanca, preaching a great lie, saying that we had been beaten and robbed, but we were fine, but we had to go back to Mansoa)!.

…o furriel Honório, o piloto da avioneta do correio, a quem chamávamos o “Pardal” pelas suas acrobacias, ia levar correio e medicamentos à vila de Mansabá, trouxe-nos na avioneta!. Quando a avioneta sobrevoou o aquartelamento de Mansoa e, a secção de combate foi prestar segurança à pequena abertura que havia no capim ao norte do aquartelamente, a que nós chamávamos aeroporto, pensando recolher os sacos do correio, onde não vinha correio nenhum, deparando com nós, ambos com aspecto de militares abandonados, logo nos disseram:

– só podiam ser vocês!. O comandante vai dar-vos uma “porrada” (castigo disciplinar), que estão fodidos!.

(The furriel Honorius, the pilot of the mail plane, whom we called the “Sparrow” for his acrobatics, was going to take mail and medicines to the village of Mansabá, he brought us in the plane! As the plane flew over Mansoa’s barracks and the combat section went to secure the small opening in the grass north of the village, which we called the airport, thinking of picking up the mail bags, where no courier came, we, both looking like abandoned soldiers, soon told us:

– It could only be you!. The commander is going to give you a “stuck” (disciplinary punishment), you are fucked)!.

…nunca sabemos porquê, mas mais nada nos aconteceu!. Que “porrada”, maior podíamos levar, se tínhamos sido “agredidos e roubados” e, mesmo assim, obedientes, regressámos ao local de tortura!. (We never know why, but nothing else happened to us!. What a “stuck” we could take, if we had been “beaten and robbed” and yet obedient, we went back to the torture place)!.

Tony Borie, May 2018.